Bem vindo à Oncologia-EuSaúde
A Rede Onco Vida foi idealizada para reunir pacientes, parentes, amigos médicos, profissionais e toda a comunidade interessada nas políticas de prevenção e tratamento do câncer.
Junte-se a nós e compartilhe suas dúvidas, experiências e contribua para o crescimento da Rede.
Registrar-se é muito fácil, basta preencher os campos para obter a sua nova conta.
Crie a sua conta
Bem vindo à Oncologia-EuSaúde
Veja o que outras pessoas como você estão comentando na nossa comunidade.
Atualize o seu perfil, interaja com outras pessoas no seu mural e registre a evolução do seu tratamento e o seu estado de saúde.
 
Última atualização: quinta-feira, 31 de março de 2016 14:25:12
Dr. Ricardo Mello Marinho (ginecologista) Atualizado em 19 de janeiro de 2015 Oncofertilidade

Preservação da fertilidade em mulheres com câncer

Com o diagnóstico precoce e os avanços no tratamento, um grande número de mulheres tem sido curadas do câncer. Entretanto, muitas delas ainda são jovens e mantêm o desejo de gestações futuras.  O tratamento do câncer com quimio ou radioterapia poderá, muitas vezes,  levar à destruição de folículos ovarianos e consequente  infertilidade ou falência ovariana.

Nos últimos anos, uma área da medicina chamada Oncofertilidade passou a despertar  grande interesse, integrando a oncologia e a medicina reprodutiva com o objetivo de desenvolver técnicas que permitam  preservar a fertilidade ou manter chances de gestações futuras em pacientes  jovens que forem submetidas a tratamentos com risco de prejuízo à fertilidade

A Sociedade Americana de Oncologia recomenda que mulheres entre 14 e 40 anos candidatas a receber quimioterapia ou radioterapia com chance significativa de comprometimento da função ovariana devem ser aconselhadas por um médico especialista em Medicina Reprodutiva com relação aos métodos de preservação de fertilidade.  Entretanto, por se tratar de um momento crítico, com muitas decisões a serem tomadas em um curto período de tempo, nem sempre tem havido oportunidade para as pacientes discutirem este tema.

Opções para preservação da fertilidade feminina

Algumas das técnicas usadas atualmente para a preservação da fertilidade, já estão bem estabelecidas, como a criopreservação (congelamento) de óvulos e de embriões. Outras apresentam resultados incertos, como o uso de medicamentos durante a quimioterapia para proteger a função ovariana, ou são ainda experimentais, como a criopreservação de tecido ovariano para posterior autotransplante ou maturação dos óvulos em laboratório.

Não sendo possível preservar a fertilidade ou manter óvulos para utilização futura, uma alternativa após a instalação da falência ovariana seria a utilização de óvulos doados para fertilização in vitro, de acordo com a resolução do Conselho Federal de Medicina. É eticamente possível utilizar óvulos doados anonimamente, sem remuneração.

Para pacientes cujo tratamento envolveu a retirada do útero, mas não comprometeu a função ovariana, é possível colher seus óvulos, fazer uma fertilização in vitro e transferir os embriões resultantes para o útero de uma parenta, que irá gestar para ela. É a chamada gravidez por “útero de substituição”, que também não pode ser remunerada.

Divulgação/SXC.HU

Divulgação/SXC.HU

Além disso, são possíveis as seguintes técnicas para a preservação da fertilidade feminina:

  1. Criopreservação de oócitos ou embriões

A criopreservação de oócitos e embriões, técnicas já bem consolidadas, são alternativas para pacientes que já estão no período reprodutivo e podem ser submetidas à estimulação ovariana previamente ao tratamento do câncer.

Inclui as etapas de estimulação ovariana com injeções de hormônios, controle ultrassonográfico e punção dos ovários para aspiração dos óvulos por via vaginal, guiada por ultra som, sob analgesia. Os oócitos obtidos podem ser congelados no mesmo dia da coleta, ou fertilizados com espermatozoides do parceiro e congelados no 3º ou 5º dia de cultivo.

Em caso de haver uma boa resposta ao tratamento do câncer, um bom prognóstico e liberação do oncologista responsável, os embriões podem ser descongelados e transferidos para o útero da paciente após um breve preparo hormonal.  No caso do congelamento de oócitos, estes serão descongelados e fertilizados com os espermatozoides do parceiro. Após um breve período de cultura em laboratório, estes embriões serão transferidos para o útero da paciente.

Estas duas opções exigem em torno de 15 a 20 dias para a indução e coleta dos oócitos antes da quimioterapia, com algumas visitas para monitorização da indução.  Para muitos oncologistas e pacientes, isto pode ser uma dificuldade.  Para evitar elevações dos hormônios durante a indução, o que poderia ser indesejado em alguns casos, esquemas especiais com associação de outras drogas podem ser utilizados.

A criopreservação de embriões é uma técnica já bem estabelecida. As taxas de gravidez por ciclo de embriões descongelados é semelhante a dos ciclos com transferência sem congelamento. As taxas de sucesso dependem da idade (podendo atingir 50% por transferência em mulheres com menos de 35 anos).

A criopreservação de oócitos evoluiu bastante nos últimos anos, apresentando agora bons resultados.  Estima-se que mais de 1000 crianças já nasceram após o uso deste procedimento.  As chances de gravidez futura dependerão da idade da paciente no momento do congelamento, podendo ser de 20 a 40%.

Embora eficazes, o congelamento de oócitos e embriões exige o uso da tecnologia de fertilização in vitro e cultura de embriões, uso de medicação indutora de ovulação, monitoramento da ovulação, equipamentos e laboratório sofisticados e equipe treinada. Também não restauram a função ovariana, apenas dão chances de se obter gestações futuramente.  No caso do congelamento de embriões, existem questões éticas potenciais futuras, caso ocorra o falecimento da paciente ou separação do casal. Só se aplicam a mulheres no período fértil da mulher com função ovariana estabelecida e não podem ser utilizadas em crianças.

  1. Criopreservação  do tecido ovariano

O congelamento de tecido ovariano retirado da paciente antes do início do tratamento e posterior transplante para a paciente após a liberação do oncologista é uma técnica potencialmente promissora, em evolução, necessitando de pesquisa adicional. Por isso, é considerada experimental.

Os fragmentos de tecido ovariano são obtidos por videolaparoscopia e levados ao laboratório para a realização do processo de criopreservação. Entre 2 a 5 anos, a depender da resposta ao tratamento e da liberação do oncologista, estes fragmentos poderão  ser recolocados do organismo da paciente, para gestação espontânea.

Estima-se que mais de 30 crianças já nasceram após a utilização desta técnica em alguns centros no mundo, nenhuma ainda no Brasil. Centenas de mulheres já têm fragmentos de tecido ovariano congelado, aguardando a evolução da técnica  e do momento adequado para o retransplante.

Muitas questões ainda estão em evolução, na tentativa de melhorar as técnicas de congelamento, descongelamento e transplante, para que este se torne um tratamento estabelecido. Existe um risco teórico de se transplantar células malignas que porventura estiverem presentes no tecido ovariano na época na cirurgia. Esta situação teria um risco maior em alguns tipos de câncer, mas não ocorreu ainda, na pratica. Este risco poderia ser evitado com o desenvolvimento de técnicas para se identificar estas células nos fragmentos de tecido ovariano ou com a  maturação de folículos ovarianos in vitro (em laboratório).

3.            Maturação in vitro de folículos e fertilização in vitro

A técnica consiste no isolamento de pequenos folículos a partir do córtex do tecido ovariano e na maturação in vitro dos folículos isolados, até que os mesmos atinjam uma etapa em que possam ser  fertilizados no laboratório com o sêmen do companheiro.

A maturação folicular in vitro ainda é considerada experimental.  Diversos grupos já obtiveram resultados positivos em experimentos com animais. Entretanto, ainda são necessários extensos estudos acerca da foliculogênese e da técnica de maturação, para que esta possa ser de fato estabelecida rotineiramente e oferecida às pacientes.

Conclusão

A área da Oncofertilidade é uma área de grandes avanços atuais e perspectivas. Deve ser abordada de forma multidisciplinar, envolvendo oncologistas, hematologistas, mastologistas especialistas em medicina reprodutiva, urologistas, embriologistas e psicólogos, organizados de maneira a prestar um atendimento rápido, eficiente e acolhedor às pacientes.

Muita cautela, entretanto, deve ser tomada com o uso de técnicas experimentais, especialmente quando oferecidas para pacientes em situações de fragilidade emocional. A paciente e os familiares devem receber apoio psicológico adequado e informação correta sobre as reais chances de se obter uma gestação futura com as técnicas estabelecidas e as limitações das técnicas experimentais.

Saiba mais sobre este assunto tirando suas dúvidas com os profissionais de saúde em nossa rede social. Clique aqui e acesse agora mesmo.

Publicado em 19 de setembro de 2014 Atualizado em 19 de janeiro de 2015
Comentários desta publicação